20 janeiro 2014

24

Às tuas cores


Dez anos inteiros se passaram. Os dias voltaram a ficar frios e tenho a constante sensação de vazio. Sinto falta da pessoa que fui um dia, há muito tempo, quando você ainda estava aqui.

Ainda lembro com perfeição do dia em que te conheci. Chovia, mas não era qualquer chuvinha. Era uma tempestade daquelas que faz dia virar noite em fração de segundos. Vi você caminhando pela calçada, sem guarda-chuva, sem a menor preocupação em se esconder daquele aguaceiro. Andava como quem não tem medo de ficar encharcada até os ossos. Nem parecia ter medo de pegar um resfriado. Como se as coisas banais não te atingissem. Te vi passar, caminhando alegre, cantarolando alguma coisa. Invejei sua coragem profundamente.

Eu estava tendo um dia miserável. Escondido dentro daquele café, esperando a chuva passar como a maioria das pessoas que estavam lá. A tempestade parecia horrível e ficava mais forte a cada instante. Tudo estava escuro e cinza e foi ai que te vi passar. Não sei explicar, mas é como se antecipasse o arco-íris, como se carregasse consigo todas as cores do mundo.  

         Chamou-me atenção pela sua segurança e coragem de se impor contra as desventuras da vida. Seus lábios sibilando uma canção. Seus passos cadenciados. Tudo isso me tomou desprevenido. Enfiei a mão na carteira e paguei a xícara de café que ainda não havia tomado. Abri a porta e simplesmente fui atrás de você. Naquele dia não tinha mais nada a perder, decidi arriscar. Tudo que eu queria era ser feliz e de repente te vi e não sei como, mas isso fez todo sentido do mundo. Você era uma daquelas oportunidades extraordinárias das quais não podemos abrir mão, imaginei. E fosse como fosse, tive a certeza de uma coisa: se você não pudesse me contar o segredo da vida, ninguém mais poderia.

         Encarei a chuva e como louco corri em sua direção. Naquele momento não conseguia pensar em mais nada, só na necessidade gritante de falar com você. Te vi parar em frente a uma vitrine (qual pessoa em sã consciência para em meio à uma tempestade para olhar uma vitrine?), foi a oportunidade que estava esperando. Acaso, destino? Chame como quiser. 

         – Oi.

Você olhou pra mim com um sorriso e disse:

         – É lindo, não acha?

Apontou para vitrine onde pude ver um vestido solto, estampado com flores coloridas. Mal tive tempo para responder quando você emendou:

– Você também cansou de se esconder da vida?
– Me ensina a ser feliz?
– Apenas seja. Não tem mistério.   

Esse, muito provavelmente, foi o diálogo mais incomum que já tive em toda minha vida. Talvez tenha acontecido apenas em sonho, já não sei mais... Mas quer saber de uma coisa? Eu fui. Você – mais que ninguém – sabe que eu fui feliz como nunca acreditei que fosse possível. Continuamos caminhando pela chuva, daquele dia em diante, continuamos caminhando juntos. Aprendi a amar tuas cores. Aprendi a conviver com tua simplicidade cheia de caprichos irresistíveis. A propósito, você ainda tem o vestido que eu te dei? Não, isso não importa.
        
         Mas hoje posso perceber que nunca fui capaz de compreender profundamente o significado das coisas que você me disse. Penso que talvez haja um jeito certo de viver, a fim de que possamos ser realmente felizes. Talvez devesse ser mais simples, mais doce, um pouco menos cheio de expectativas. Mas isso não importa, pois descobri uma coisa. O fato é que não sei ser feliz sem você, tento, mas não consigo. Acontece que as coisas têm fim. Fui imprudente ao confiar toda minha felicidade a você. Mas, quer saber mais uma coisa? Se ao menos pude sentir o sabor indescritível da felicidade, então não tenho o direito de me arrepender, isso não importa. Não há nenhum reparo a ser feito. Foram as minhas escolhas e eu faria tudo exatamente igual, mesmo sabendo quais seriam os resultados.
        
         Hoje decidi voltar aqui porque outra tempestade se aproxima, Ana. Está chovendo lá fora e eu estou exatamente onde estava quando reconheci tuas cores. Atrás da vidraça de um café no centro da cidade. Não trago esperança de te ver passar. Mas isso não me impede de te imaginar, solta, livre, colorida. Olhos indescritivelmente azuis. Lábios rosados. Bochechas vermelhas. E aquelas tuas sardas tão adoráveis? Teus cabelos ruivos, molhados. Tua tatuagem de guarda-chuva. Tua imagem arco-íris. Como será que você está? 

         Pois é minha queria Ana, a essa altura você já deve ter entendido tudo. Desaprendi o que nunca aprendi de verdade e cá estou eu mais uma vez me escondendo da vida. Voltei a ser um fodido e estou em mais um dia miserável. Fumando um cigarro devagar, tomando um café forte e sem açúcar enquanto insisto nessa tentativa de carta que você nunca chegará a ler. Bem que você poderia ter me deixado seu endereço. Me pergunto se teria adiantado alguma coisa. Talvez não. Talvez.

         Acontece que aprendi a amar tuas cores, Ana, mas não consigo encontrar as minhas. Em dias como este, revejo o nosso filme que desbotou com a tua partida. Revejo cena por cena, quadro a quadro. Tudo voltou a ser preto e branco. Mas não quero que se preocupe. Não quero que pense que não entendo e que não entendi. No fundo eu, mais que ninguém, sempre soube porque você teve que partir. Passarinhos não nasceram para ficar presos em gaiolas. Desde o momento que te conheci soube que mais cedo ou mais tarde você teria que migrar.
        
         Minha memória tem ficado pior a cada dia, as coisas se confundem aqui dentro de mim. Ainda assim consigo lembrar a nossa despedida. Tua imagem nunca saiu de mim um momento sequer. O azul dos teus olhos mergulhados em lágrimas cintilantes. Teus lábios rosados, silenciosos e indecisos num quase meio sorriso. Teus passos apressados. Os tênis vermelhos. O táxi amarelo. E um horizonte nublado desabando inteiro sobre a minha cabeça. Desde então venho tentando adoçar a tristeza da nossa poesia, mas há sempre um quê de amargura que não sai dos nossos versos.

         “Me perdoa por não ter sabido ser teu céu.” Será que você vai poder me perdoar um dia? Tudo bem, isso já faz tanto tempo. Onde quer que você esteja agora, não quero que se preocupe comigo Ana. Estou vivendo bem com minhas xícaras de café meio frias. Ainda tenho meus vinis e um punhado de certezas empoleiradas pelas velhas estantes da casa. Confesso que depois de certo tempo a gente acaba se acostumando a ver a vida em preto e branco. Bem, antes que eu esqueça obrigada por ter deixado aquele retrato seu. Essa vida de merda seria ainda pior se não pudesse lembrar de você.
        
P.S: Ahh Ana, minha querida Ana! Sim, sinto tantas saudades, mas sei que é melhor assim. Não poderia viver feliz mantendo um pássaro engaiolado, assistindo sua morte lenta. Me sinto menos triste convivendo com a certeza que você está fazendo o que gosta. Batendo as lindas asas pelo mundo, colorindo céus, mesmo que não seja o meu.  


Com amor, Edmundo. 
Comentários
24 Comentários

24 comentários:

  1. Boa tarde Mayra.. somos muitos os que fecham as portas da alma e se escondem do bem mais precioso que nos foi concedido.. não vivemos mais como quando éramos pequenos.. o banho e chuva, era fabuloso.. ra vida, as cores existiam em nós.. nos dias de hj nossas auras estão envoltas por cores escuras de sentimentos vazios que carregamos em nós.. bjs e um lindo dia

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    1. Olá, Samuel.

      É somente uma questão de escolha, quem fechou a porta pode voltar a abri-la, mesmo que num primeiro momento não seja tão fácil.

      Abraços e agradeço pela vista e comentário, espero vê-lo por aqui mais vezes, seja muito bem-vindo, até breve.

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  2. Lindo texto <3
    "a sua coragem de ser feliz acima de tudo..."
    Bejoka
    Mania de Bruna
    @ManiaDeBruna

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    1. Que bom que gostou, Bruna.
      Porque a felicidade acima de tudo, exige mesmo certa coragem da gente.

      Abraços, querida.
      Muito obrigada pela visita!

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  3. Antes de projetar a nossa felicidade no outro, precisamos amar e sermos felizes com nós mesmos. Nos abraçarmos,admirarmos e aceitarmos como somos, porque senão desejamos no outro a felicidade que apenas nós podemos ter.
    Acho que grandes amores, as vezes acontecem pra marcar vidas, então, vez ou outra, precisam ir embora. O difícil é reconhecer, deixa a posse de lado e permitir que o "nosso" alguém seja de outro alguém.
    Texto lindo, poético, sutil...

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    1. É como aquela história: só ama quem tem amor. A felicidade não é algo que vem do outro e sim de nós mesmos, Depositar na outra pessoa a responsabilidade por algo que só nós podemos fazer além de arriscado é um gesto até meio egoísta.

      Acho que aos poucos o Edimundo vai aprendendo como ser realmente feliz, acho que já é um começo querer alegrar-se com a felicidade da outra pessoa seja ao lado dele ou não, é um gesto de entrega, de pensar no outro antes de pensar apenas em si, a liberdade é um bom caminho pra gente poder conhecer a felicidade.

      Beijos, moça.

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  4. May Borges tu te superas a cada linha...

    Muitas vezes somos focados nas nossas própria cores, ignorando as cores das pessoa amada que completa o arco-ires e quando elas vão embora ficamos em um mundo preto e branco.

    Bjs

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    1. No caso do Edimundo, ele era tão focado nas cores da Ana que esqueceu das próprias. Ele achava que só ela poderia colorir o seu mundo quando na verdade era ele quem deveria encontrar suas próprias cores,

      Forte abraço, Claudio.

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  5. Oi Mayra!
    Achei bem interessante, intenso, com um bom jogo de palavras. Passa uma boa mensagem, com vários detalhes.

    Beijos!

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    1. Obrigada, Rick, fico feliz que tenhas gostado.

      Abraços.

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  6. A liberdade é vestida de todas as cores.
    Um beijo grande

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  7. Nem todas as cores parecem compatíveis umas com as outras.
    Que estória mais bem escrita! ><

    Beijos
    http://mon-autre.blogspot.com.br/

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    1. É verdade, Jeniffer.
      Fico feliz que tenhas gostado da história.

      Beijos, querida.

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  8. Quando se ama um pássaro, é inevitável: ou se ouve o canto triste de quando ele está dentro da gaiola, ou se tem de suportar a dor de vê-lo partir. Já me apaixonei por pássaros, Mayra. Acho que todos se apaixonam um dia, é inevitável, são encantadores.

    Seu texto me aprisionou dentro de Edimundo (aliás, belo nome, nada de "Jhon" ou "Brad ou "Tom" e outros americanizados), suas palavras são lindas, sua história fez-me sentir uma ponta de angústia lá no fundinho da alma. A maneira que Edimundo lida com a dor me causa inveja. O conto é cativante mesmo, parabéns.

    Por último, obrigada pela visita, querida. Me senti bem recepcionada estando de volta e sinto-me feliz por ter conheci esse blog. Um abraço!

    Railma Medeiros
    railmamedeiros.blogspot.com

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  9. Quando se ama um pássaro, é inevitável: ou se ouve o canto triste de quando ele está dentro da gaiola, ou se tem de suportar a dor de vê-lo partir. Já me apaixonei por pássaros, Mayra. Acho que todos se apaixonam um dia, é inevitável, são encantadores.

    Seu texto me aprisionou dentro de Edimundo (aliás, belo nome, nada de "Jhon" ou "Brad ou "Tom" e outros americanizados), suas palavras são lindas, sua história fez-me sentir uma ponta de angústia lá no fundinho da alma. A maneira que Edimundo lida com a dor me causa inveja. O conto é cativante mesmo, parabéns.

    Por último, obrigada pela visita, querida. Me senti bem recepcionada estando de volta e sinto-me feliz por ter conheci esse blog. Um abraço!

    Railma Medeiros
    railmamedeiros.blogspot.com

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  10. Seu texto me fez sentir uma ponta de angústia na alma, que só Edimundo ou alguém que realmente se apaixonou por um pássaro saberá do que falo. É um beco sem saída: acostumar-se com o cantar triste de quem está engaiolado ou suportar a dor de vê-lo partir. Invejo o personagem pelo modo que ele lida com a dor, queria eu ter sido assim. Seu texto, Mayra, é realmente encantador, comovente, além de bem escrito.

    Por último, obrigada pela visita e pelo belíssimo comentário, senti-me feliz ao lê-lo e ver que esse espaço não se perdeu, que existem blogs com conteúdo literário, que posso ler algo além de tutoriais, de unhas, de looks do dia (nada contra, até vejo, mas não prefiro). Realmente tive vontade de voltar. Um abraço, querida.

    Railma Medeiros,
    railmamedeiros.blogspot.com

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    1. Quem ama liberta, se foi embora, que ao menos deixe algo de bom em quem ficou. Deve ser por isso que o Edimundo aprendeu a se virar, deve ter restado algo bom da Ana, nele. Amar passarinho é como você disse: um beco sem saída. Ou a gente sabe ser céu ou aprende a se acostumar com as revoadas.

      Fico feliz que tenhas gostado do que escrevi e também do meu espaço aqui, espero vê-la mais vezes, seja muito bem-vinda ao Era outra vez.

      Beijos :**

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  11. Me ha gustado mucho como escribes y como haces de los sentimientos escaleras de colores.

    un abrazo

    fus

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    1. Fico feliz que tenhas gostado, Fus.

      besos ^^

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  12. O medo não nos deixa ser feliz. Beijos

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  13. Quanto mais a gente ama sem a ele impor correntes, mais verdadeiro o amor é. Liberdade e amor voam juntas. E apenas nós somos responsáveis por nossa felicidade. Como ela disse. Se quisermos ser feliz, basta sermos. E seremos mais ainda quando desejarmos o mesmo para quem amamos, sem que isso signifique ela estar em nossa vida.

    Belíssimo texto May! :)

    Beijo!

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    1. Disse tudo, Alexandre.

      Obrigada *-*

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"Quero desesperadamente ser uma sacudidora de palavras para o mundo"
- Markus Zusak