06 abril 2015

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Declaração de amor à cidade




Hoje a cidade amanheceu despida de qualquer requinte. Mostrou-se sem nenhum pudor. Escancarou a boca num sorriso desdentado. Mostrou-me a pele tão cheia de feridas expostas. Pisquei rapidamente, sem entender o que estava acontecendo. A cidade recebeu meu olhar de espanto com indignação e me sacudiu, energicamente, de um lado para outro. Gritou com voz firme: “Enxergue!”. Soube de imediato que precisava enxergá-la com olhos mais atentos e com sentimentos mais aflorados. Era preciso, antes de tudo, reconhecer suas imperfeições para só então declarar-lhe amor sincero.

Aurora, saudade, melancólicas ruas por onde desfilo meu cansaço. Poemas escondidos a espera de quem os recite. Esquinas de antigas paixões. Muros pintados por silenciosas declarações de qualquer espécie. Quantas lágrimas encontraram destino a secar nessas velhas calçadas alquebradas? Praças, parques e avenidas, como fieis testemunhas do tempo, mentor de grandes histórias e revoluções. Até que ponto há realidade nisso que escrevo? Diante da indagação, um estremecimento. Um grito! Acordo atônito do meu devaneio insólito. O véu da ilusão rasga-se diante do meu olhar incrédulo, a tempestade era tão somente, uma garoinha à toa.

Caio nos braços da vida, reconheço sua dureza. O flautista que toca suas músicas para ouvidos desatentos. O homem surdo a entregar bilhetes e vender chicletes numa estação qualquer. O velho, o pandeiro e as rimas tortas e desgastadas de quem precisa ganhar o resto da vida que ainda tem para viver. Meninos com pés descalços. Homens e mulheres de semblante embrutecido pela pobreza e pelo trabalho. Contemplo o pesaroso transitar desses lutadores diários, rendidos pelo cansaço, minimamente reconfortados por alguns trocados.

O grito ecoa mudo, transborda através dos olhos. Um pedido de atenção. 3,7 milhões de rostos estranhos e almas idênticas. Presencio o cansaço dos que não tem opção senão a de tentar comprar um pouco de vida com salários mínimos. “Olha a pastilha refrescante!”; “Pipoca salgadinha!”; “Só paga um real.”; “Tenho três filhos, minha esposa está doente e eu desempregado...”; “Qualquer ajuda serve.”; “Deus lhe abençoe, moço.” Por que as coisas permanecem tão inalteradas? Talvez porque todos estejam amontoados no mesmo trem. “Amém”.

Essa cidade que me acolhe como mãe, é a mesma que me empurra do alto dos seus precipícios de concreto e grita: vá, já passou da hora de voar! Abro minhas asas inexperientes, destreinadas. Tropeço nas correntes de ar com cheiro de maresia. Não voo, despenco por entre a fumaça e as cinzas dos sonhos carbonizados. Cambaleio por entre os paredões de concreto. Desabo sobre a madeira gasta dos barcos à beira-mar. Engulo a seco a poesia áspera que a cidade exala. Com desejo pulsante, porém temeroso atravesso pontes, rios, magues. Contemplo a nudez da cidade com olhos de objetiva. Frame a frame registro o ritmo acelerado das suas transformações.

Recortes multicoloridos estendem-se até onde a vista alcança. São todas as histórias não contadas. Todas as mágoas esquecidas no fundo de corpos exaustos. Todas as alegrias compartilhadas anonimamente. Todas as lágrimas sofridas. Todos os risos mais felizes. Milhares de partículas individuais que formam um imenso e diverso mosaico. Contemplo a cidade nua. Já não mais me importo com suas grandiosas construções. Já não leio mais os poemas de cimento e tinta. O que permanece em mim são as impressões do grandioso mosaico. Os olhares vivos. As mãos calejadas. A gota de suor que escorre pela testa. O alívio de chegar a algum lugar.

Os sentimentos da cidade invadem meu corpo. Vejo a beleza e a feiura, a alegria e a dor mesclando-se num enorme pavilhão de cores, bem diante dos meus olhos. Finalmente enxergo a verdade que não queria ver. Reconheço-me como igual daquela gente. Também estou no mesmo trem. Faço parte da mesma luta. Reconheço as imperfeições dessa cidade que para ser inteira precisa repartir-se em milhões de partes. Cada parte um nome, um rosto, uma identidade, um plano, um destino. Caminho por uma rua qualquer. Sinto as gotas de chuva molhando meu sorriso. Finalmente eu entendo, também faço parte desse poema de antônimos. 

E assim, completamente arrebatado pela imensidão da realidade, de braços e peito aberto, sincero me declaro:


 – Recife, eu te amo. 



Comentários
9 Comentários

9 comentários:

  1. O belo depende menos do o ser do que do de quem o admira saber ver.
    GK

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  2. Olá, Mayra! Muito legal te reencontrar! Deixe-me dizer duas coisas... Uma... Este teu texto tão belo e bem escrito me fez pensar naquela velha canção... "Voltei, Recife / Foi a saudade que me trouxe pelo braço..." Conheces, não?... Duas... Dá pra ver na foto do teu perfil que o pôster na parede tem a letra de "Terra de Gigantes". Pois bem. Acredita que assisti ao show do Humberto anteontem aqui em São Paulo? E, sim, ele a tocou! Coincidência legal, não? Bjs!
    GK

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    1. Olá!
      também estou contente por voltar um pouco aqui. Sim, conheço essa música, hino de muitos carnavais ao longo do tempo.
      Eu tenho uma verdadeira queda por Engenheiros e por quase tudo que o Humberto produz. Já fui a alguns shows dele e realmente Terra de gigantes é música obrigatória dos shows dele.

      Bom vê-lo por aqui.
      Obrigada pelos comentários!
      Forte abraço, GK.

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  3. Que declaração mais incrível!! *_*
    Estive em Recife apenas uma vez a alguns anos, mas gosto muito daí! Parabéns pelo texto.
    Estou seguindo o blog.

    Feliz ano novo!!
    Beijos,
    http://postandotrechos.blogspot.com.br/

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    1. Fico feliz que tenha gostado. Recife é uma cidade linda!

      Muito obrigada por seguir :D
      Beijos!

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  4. Você escreve tão bem...! Fiquei encantada com seu texto. Suas palavras são fortes e sinceras.

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    1. Que bom que gostou, Larissa.
      Fico feliz pela visita e pelo carinho. Bjs!

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  5. Que declaração esplendorosa.Temos que aprender a prestar atenção em tudo que está a nossa volta. Observar, amar e se apaixonar pelo mundo ao nosso redor.
    Um abraço,
    http://juliet-in-crisis.blogspot.com.br/

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    1. É verdade!

      Muito obrigada pela visita e pelo carinho. Bjs, Nathy.

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"Quero desesperadamente ser uma sacudidora de palavras para o mundo"
- Markus Zusak