11 fevereiro 2016

19

Balão



Vejo que o tempo desbotou teu sorriso e desmistificou teu olhar. Sei da tua luta diária contra a solidão. E do medo que habita teu coração ainda tão cheio de vãs esperanças. Esse estranho vazio sempre esteve a espreita das tuas escolhas. O que tens agora é resultado das tuas buscas. Nas mãos, utopias. Nos olhos, o cansaço de quem ainda não encontrou um porto seguro.
Pernas e olhos, bocas e sexo, prazer, efemeridade e juventude... Visões esplêndidas do paraíso que nunca foi teu, jazem no fundo desfocado da tua retina. Sob os pés o mesmo chão empoeirado. Sob os olhos as mesmas avenidas desalmadas. As gavetas abarrotadas com belas experiências parecem nunca estarem cheias o bastante. Há sempre algo que buscar. Há sempre uma incompletude a ser brindada com avidez.
Vi o futuro.
Ele nunca passará de um belo sonho. Será apenas um punhado de fotografias indecentes, espalhado pelo chão da sala zombando dos teus erros. Uma bela visão flutuando a uma altura em que teus dedos jamais poderão alcançar. Indo embora. Cada vez mais longe. Um balão sendo tragado pela imensidão de um amor que chegou antes do teu.
Tenho as respostas. Quantos golpes certeiros podes suportar?
Haverá sempre uma recordação cruel. Traiçoeira. Ela permanecerá brilhando eternamente em tua mente de lembranças forjadas, como ouro de tolo. Quanto valor pode ser atribuído a uma falsificação?
Haverá sempre uma tempestade a postos para nublar tuas esperanças. Doravante o relógio andará duas vezes mais rápido. As ilusões estarão sempre dispostas a continuar cumprindo com o que prometeram. Somente os loucos se dignam a correr no encalço de miragens. Quanto vale apaixonar-se por uma projeção?
Decida: o amor de uma vida ou a paixão de uma noite? Parece fácil? Sinta outra vez. Ouça com atenção cada umas das palavras que não foram ditas. Não há mais espaço no lugar onde queres forjar tua morada.
Frente a frente. Atento para uma imagem partida de olhar perdido. E esses cacos pertencem a tua armadura, que jaz, sob meus pés.  O relógio denuncia o tempo desperdiçado em escolhas adiadas. Não há medo, mas ainda há dor. Há sentimentos estilhaçando-se diante dos meus olhos. É tarde demais para ficar, mas cedo demais para ir embora.
Nenhum de nós sonhará esta noite.
Não se pode escrever palavras bonitas diante de sentimentos tão duros. Há um nó na garganta e uma pilha de coisas que desmoronam de nossas mãos. Talvez as percamos para sempre, mas “para sempre” é tempo demais em se tratando de nós. Por hora, mantenho-me dentro dos meus próprios limites. Mas uma pergunta persiste: se já estão no céu, para onde vão os balões quando morrem?



06 abril 2015

9

Declaração de amor à cidade




Hoje a cidade amanheceu despida de qualquer requinte. Mostrou-se sem nenhum pudor. Escancarou a boca num sorriso desdentado. Mostrou-me a pele tão cheia de feridas expostas. Pisquei rapidamente, sem entender o que estava acontecendo. A cidade recebeu meu olhar de espanto com indignação e me sacudiu, energicamente, de um lado para outro. Gritou com voz firme: “Enxergue!”. Soube de imediato que precisava enxergá-la com olhos mais atentos e com sentimentos mais aflorados. Era preciso, antes de tudo, reconhecer suas imperfeições para só então declarar-lhe amor sincero.

Aurora, saudade, melancólicas ruas por onde desfilo meu cansaço. Poemas escondidos a espera de quem os recite. Esquinas de antigas paixões. Muros pintados por silenciosas declarações de qualquer espécie. Quantas lágrimas encontraram destino a secar nessas velhas calçadas alquebradas? Praças, parques e avenidas, como fieis testemunhas do tempo, mentor de grandes histórias e revoluções. Até que ponto há realidade nisso que escrevo? Diante da indagação, um estremecimento. Um grito! Acordo atônito do meu devaneio insólito. O véu da ilusão rasga-se diante do meu olhar incrédulo, a tempestade era tão somente, uma garoinha à toa.

Caio nos braços da vida, reconheço sua dureza. O flautista que toca suas músicas para ouvidos desatentos. O homem surdo a entregar bilhetes e vender chicletes numa estação qualquer. O velho, o pandeiro e as rimas tortas e desgastadas de quem precisa ganhar o resto da vida que ainda tem para viver. Meninos com pés descalços. Homens e mulheres de semblante embrutecido pela pobreza e pelo trabalho. Contemplo o pesaroso transitar desses lutadores diários, rendidos pelo cansaço, minimamente reconfortados por alguns trocados.

O grito ecoa mudo, transborda através dos olhos. Um pedido de atenção. 3,7 milhões de rostos estranhos e almas idênticas. Presencio o cansaço dos que não tem opção senão a de tentar comprar um pouco de vida com salários mínimos. “Olha a pastilha refrescante!”; “Pipoca salgadinha!”; “Só paga um real.”; “Tenho três filhos, minha esposa está doente e eu desempregado...”; “Qualquer ajuda serve.”; “Deus lhe abençoe, moço.” Por que as coisas permanecem tão inalteradas? Talvez porque todos estejam amontoados no mesmo trem. “Amém”.

Essa cidade que me acolhe como mãe, é a mesma que me empurra do alto dos seus precipícios de concreto e grita: vá, já passou da hora de voar! Abro minhas asas inexperientes, destreinadas. Tropeço nas correntes de ar com cheiro de maresia. Não voo, despenco por entre a fumaça e as cinzas dos sonhos carbonizados. Cambaleio por entre os paredões de concreto. Desabo sobre a madeira gasta dos barcos à beira-mar. Engulo a seco a poesia áspera que a cidade exala. Com desejo pulsante, porém temeroso atravesso pontes, rios, magues. Contemplo a nudez da cidade com olhos de objetiva. Frame a frame registro o ritmo acelerado das suas transformações.

Recortes multicoloridos estendem-se até onde a vista alcança. São todas as histórias não contadas. Todas as mágoas esquecidas no fundo de corpos exaustos. Todas as alegrias compartilhadas anonimamente. Todas as lágrimas sofridas. Todos os risos mais felizes. Milhares de partículas individuais que formam um imenso e diverso mosaico. Contemplo a cidade nua. Já não mais me importo com suas grandiosas construções. Já não leio mais os poemas de cimento e tinta. O que permanece em mim são as impressões do grandioso mosaico. Os olhares vivos. As mãos calejadas. A gota de suor que escorre pela testa. O alívio de chegar a algum lugar.

Os sentimentos da cidade invadem meu corpo. Vejo a beleza e a feiura, a alegria e a dor mesclando-se num enorme pavilhão de cores, bem diante dos meus olhos. Finalmente enxergo a verdade que não queria ver. Reconheço-me como igual daquela gente. Também estou no mesmo trem. Faço parte da mesma luta. Reconheço as imperfeições dessa cidade que para ser inteira precisa repartir-se em milhões de partes. Cada parte um nome, um rosto, uma identidade, um plano, um destino. Caminho por uma rua qualquer. Sinto as gotas de chuva molhando meu sorriso. Finalmente eu entendo, também faço parte desse poema de antônimos. 

E assim, completamente arrebatado pela imensidão da realidade, de braços e peito aberto, sincero me declaro:


 – Recife, eu te amo. 



20 janeiro 2014

24

Às tuas cores


Dez anos inteiros se passaram. Os dias voltaram a ficar frios e tenho a constante sensação de vazio. Sinto falta da pessoa que fui um dia, há muito tempo, quando você ainda estava aqui.

Ainda lembro com perfeição do dia em que te conheci. Chovia, mas não era qualquer chuvinha. Era uma tempestade daquelas que faz dia virar noite em fração de segundos. Vi você caminhando pela calçada, sem guarda-chuva, sem a menor preocupação em se esconder daquele aguaceiro. Andava como quem não tem medo de ficar encharcada até os ossos. Nem parecia ter medo de pegar um resfriado. Como se as coisas banais não te atingissem. Te vi passar, caminhando alegre, cantarolando alguma coisa. Invejei sua coragem profundamente.

Eu estava tendo um dia miserável. Escondido dentro daquele café, esperando a chuva passar como a maioria das pessoas que estavam lá. A tempestade parecia horrível e ficava mais forte a cada instante. Tudo estava escuro e cinza e foi ai que te vi passar. Não sei explicar, mas é como se antecipasse o arco-íris, como se carregasse consigo todas as cores do mundo.  

         Chamou-me atenção pela sua segurança e coragem de se impor contra as desventuras da vida. Seus lábios sibilando uma canção. Seus passos cadenciados. Tudo isso me tomou desprevenido. Enfiei a mão na carteira e paguei a xícara de café que ainda não havia tomado. Abri a porta e simplesmente fui atrás de você. Naquele dia não tinha mais nada a perder, decidi arriscar. Tudo que eu queria era ser feliz e de repente te vi e não sei como, mas isso fez todo sentido do mundo. Você era uma daquelas oportunidades extraordinárias das quais não podemos abrir mão, imaginei. E fosse como fosse, tive a certeza de uma coisa: se você não pudesse me contar o segredo da vida, ninguém mais poderia.

         Encarei a chuva e como louco corri em sua direção. Naquele momento não conseguia pensar em mais nada, só na necessidade gritante de falar com você. Te vi parar em frente a uma vitrine (qual pessoa em sã consciência para em meio à uma tempestade para olhar uma vitrine?), foi a oportunidade que estava esperando. Acaso, destino? Chame como quiser. 

         – Oi.

Você olhou pra mim com um sorriso e disse:

         – É lindo, não acha?

Apontou para vitrine onde pude ver um vestido solto, estampado com flores coloridas. Mal tive tempo para responder quando você emendou:

– Você também cansou de se esconder da vida?
– Me ensina a ser feliz?
– Apenas seja. Não tem mistério.   

Esse, muito provavelmente, foi o diálogo mais incomum que já tive em toda minha vida. Talvez tenha acontecido apenas em sonho, já não sei mais... Mas quer saber de uma coisa? Eu fui. Você – mais que ninguém – sabe que eu fui feliz como nunca acreditei que fosse possível. Continuamos caminhando pela chuva, daquele dia em diante, continuamos caminhando juntos. Aprendi a amar tuas cores. Aprendi a conviver com tua simplicidade cheia de caprichos irresistíveis. A propósito, você ainda tem o vestido que eu te dei? Não, isso não importa.
        
         Mas hoje posso perceber que nunca fui capaz de compreender profundamente o significado das coisas que você me disse. Penso que talvez haja um jeito certo de viver, a fim de que possamos ser realmente felizes. Talvez devesse ser mais simples, mais doce, um pouco menos cheio de expectativas. Mas isso não importa, pois descobri uma coisa. O fato é que não sei ser feliz sem você, tento, mas não consigo. Acontece que as coisas têm fim. Fui imprudente ao confiar toda minha felicidade a você. Mas, quer saber mais uma coisa? Se ao menos pude sentir o sabor indescritível da felicidade, então não tenho o direito de me arrepender, isso não importa. Não há nenhum reparo a ser feito. Foram as minhas escolhas e eu faria tudo exatamente igual, mesmo sabendo quais seriam os resultados.
        
         Hoje decidi voltar aqui porque outra tempestade se aproxima, Ana. Está chovendo lá fora e eu estou exatamente onde estava quando reconheci tuas cores. Atrás da vidraça de um café no centro da cidade. Não trago esperança de te ver passar. Mas isso não me impede de te imaginar, solta, livre, colorida. Olhos indescritivelmente azuis. Lábios rosados. Bochechas vermelhas. E aquelas tuas sardas tão adoráveis? Teus cabelos ruivos, molhados. Tua tatuagem de guarda-chuva. Tua imagem arco-íris. Como será que você está? 

         Pois é minha queria Ana, a essa altura você já deve ter entendido tudo. Desaprendi o que nunca aprendi de verdade e cá estou eu mais uma vez me escondendo da vida. Voltei a ser um fodido e estou em mais um dia miserável. Fumando um cigarro devagar, tomando um café forte e sem açúcar enquanto insisto nessa tentativa de carta que você nunca chegará a ler. Bem que você poderia ter me deixado seu endereço. Me pergunto se teria adiantado alguma coisa. Talvez não. Talvez.

         Acontece que aprendi a amar tuas cores, Ana, mas não consigo encontrar as minhas. Em dias como este, revejo o nosso filme que desbotou com a tua partida. Revejo cena por cena, quadro a quadro. Tudo voltou a ser preto e branco. Mas não quero que se preocupe. Não quero que pense que não entendo e que não entendi. No fundo eu, mais que ninguém, sempre soube porque você teve que partir. Passarinhos não nasceram para ficar presos em gaiolas. Desde o momento que te conheci soube que mais cedo ou mais tarde você teria que migrar.
        
         Minha memória tem ficado pior a cada dia, as coisas se confundem aqui dentro de mim. Ainda assim consigo lembrar a nossa despedida. Tua imagem nunca saiu de mim um momento sequer. O azul dos teus olhos mergulhados em lágrimas cintilantes. Teus lábios rosados, silenciosos e indecisos num quase meio sorriso. Teus passos apressados. Os tênis vermelhos. O táxi amarelo. E um horizonte nublado desabando inteiro sobre a minha cabeça. Desde então venho tentando adoçar a tristeza da nossa poesia, mas há sempre um quê de amargura que não sai dos nossos versos.

         “Me perdoa por não ter sabido ser teu céu.” Será que você vai poder me perdoar um dia? Tudo bem, isso já faz tanto tempo. Onde quer que você esteja agora, não quero que se preocupe comigo Ana. Estou vivendo bem com minhas xícaras de café meio frias. Ainda tenho meus vinis e um punhado de certezas empoleiradas pelas velhas estantes da casa. Confesso que depois de certo tempo a gente acaba se acostumando a ver a vida em preto e branco. Bem, antes que eu esqueça obrigada por ter deixado aquele retrato seu. Essa vida de merda seria ainda pior se não pudesse lembrar de você.
        
P.S: Ahh Ana, minha querida Ana! Sim, sinto tantas saudades, mas sei que é melhor assim. Não poderia viver feliz mantendo um pássaro engaiolado, assistindo sua morte lenta. Me sinto menos triste convivendo com a certeza que você está fazendo o que gosta. Batendo as lindas asas pelo mundo, colorindo céus, mesmo que não seja o meu.  


Com amor, Edmundo.